Já é a segunda vez que me presenteiam com um relógio. O primeiro que ganhei na vida veio direto do Japão. Dourado, fino, delicado e elegante; um acessório que nunca me vi usando por acreditar que poderia chamar atenção ao andar com ele na rua. E eu nunca gostei de chamar atenção, não mesmo.
Dos modelos que meu pai havia enviado naquela caixa de presentes, meu irmão e minha mãe usaram os seus relógios até desgastarem ao ponto de não ter mais conserto. Contudo, nunca consegui usar o meu. Sempre tive medo de que se eu o usasse, alguém poderia pegá-lo ou mesmo tinha aquela sensação de não ter roupas adequadas para um acessório tão elegante. No fundo, queria algo que não chamasse tanta atenção assim.
Ainda hoje, guardo esse relógio como a última lembrança palpável de algo que meu pai deixou para mim.
Essa semana, ganhei outro relógio. Desta vez foi meu padrasto que me presenteou com um. Claro que tal gesto me causou surpresa, pois nunca imaginei que ele poderia me dar alguma coisa.
Quando ele foi embora definitivamente de nossas vidas, eu só tinha 14 anos. Ele conviveu dez anos com minha mãe. Nesse tempo, eu não tinha noção das coisas da vida, não prestava muita atenção no que acontecia ao meu redor e tudo o que guardo na memória é que ele sempre me tratou bem. Por isso, nunca consegui ficar magoada por ele ter nos deixado.
A última vez que nos vimos pessoalmente, tudo que ele conseguiu dizer, com lágrimas nos olhos, foi:
-"Me desculpe... queria ter feito mais coisas para vocês."
Ele só tinha 21 anos quando entrou para a vida adulta e se envolveu com uma mulher, mãe de dois filhos pequenos e que ainda vivia um relacionamento à distância com um senhor que tinha idade para ser pai dela. Era um enredo complicado demais para alguém tão jovem. Por isso, nunca o culpei.
O gesto me deixou feliz por um breve instante. Fiquei feliz pela mensagem e por ainda ser lembrada com cuidado e carinho.
Só que a reflexão começa agora, depois de ter explicado que ganhei relógios de meus dois pais (Mario e Flávio).
O primeiro pai me deixou um relógio que tenho vergonha de usar, por achar que é elegante demais para mim...
O segundo pai me deu um relógio com a estética do dia a dia, algo que provavelmente vou conseguir usar.
Ganhei um relógio ao fazer 35 anos.
Quero acreditar que a mensagem filosófica por trás desse gesto seja simples. Algo como: "Michele, não perca mais tempo com fantasmas do passado. Vá viver, use suas horas com sabedoria".
Talvez o primeiro relógio tenha sido feito para ser guardado mesmo... como certas memórias que não foram feitas para o uso cotidiano. Elas existem apenas em silêncio dentro de mim.
O segundo, porém, vai para o pulso, para vida real.
Essa é a diferença entre o passado e o futuro: um a gente guarda e o outro... veja bem, está ali para me lembrar que, todos os dias, ganho novas horas para serem utilizadas com amor e sabedoria.
