6 de março de 2026

O Relógio


Já é a segunda vez que me presenteiam com um relógio. O primeiro que ganhei na vida veio direto do Japão. Dourado, fino, delicado e elegante; um acessório que nunca me vi usando por acreditar que poderia chamar atenção ao andar com ele na rua. E eu nunca gostei de chamar atenção, não mesmo.

Dos modelos que meu pai havia enviado naquela caixa de presentes, meu irmão e minha mãe usaram os seus relógios até desgastarem ao ponto de não ter mais conserto. Contudo, nunca consegui usar o meu. Sempre tive medo de que se eu o usasse, alguém poderia pegá-lo ou mesmo tinha aquela sensação de não ter roupas adequadas para um acessório tão elegante. No fundo, queria algo que não chamasse tanta atenção assim.

Ainda hoje, guardo esse relógio como a última lembrança palpável de algo que meu pai deixou para mim.

Essa semana, ganhei outro relógio. Desta vez foi meu padrasto que me presenteou com um. Claro que tal gesto me causou surpresa, pois nunca imaginei que ele poderia me dar alguma coisa.

Quando ele foi embora definitivamente de nossas vidas, eu só tinha 14 anos. Ele conviveu dez anos com minha mãe. Nesse tempo, eu não tinha noção das coisas da vida, não prestava muita atenção no que acontecia ao meu redor e tudo o que guardo na memória é que ele sempre me tratou bem. Por isso, nunca consegui ficar magoada por ele ter nos deixado.

A última vez que nos vimos pessoalmente, tudo que ele conseguiu dizer, com lágrimas nos olhos, foi:

-"Me desculpe... queria ter feito mais coisas para vocês."

Ele só tinha 21 anos quando entrou para a vida adulta e se envolveu com uma mulher, mãe de dois filhos pequenos e que ainda vivia um relacionamento à distância com um senhor que tinha idade para ser pai dela. Era um enredo complicado demais para alguém tão jovem. Por isso, nunca o culpei.

O gesto me deixou feliz por um breve instante. Fiquei feliz pela mensagem e por ainda ser lembrada com cuidado e carinho.

Só que a reflexão começa agora, depois de ter explicado que ganhei relógios de meus dois pais (Mario e Flávio).

O primeiro pai me deixou um relógio que tenho vergonha de usar, por achar que é elegante demais para mim...

O segundo pai me deu um relógio com a estética do dia a dia, algo que provavelmente vou conseguir usar.

Ganhei um relógio ao fazer 35 anos.

Quero acreditar que a mensagem filosófica por trás desse gesto seja simples. Algo como: "Michele, não perca mais tempo com fantasmas do passado. Vá viver, use suas horas com sabedoria".

Talvez o primeiro relógio tenha sido feito para ser guardado mesmo... como certas memórias que não foram feitas para o uso cotidiano. Elas existem apenas em silêncio dentro de mim.

O segundo, porém, vai para o pulso, para vida real.

Essa é a diferença entre o passado e o futuro: um a gente guarda e o outro... veja bem, está ali para me lembrar que, todos os dias, ganho novas horas para serem utilizadas com amor e sabedoria.

31 de dezembro de 2025

Um resumão bem resumido de 2025...

 

Ah, mais um ano chega ao fim.


2025 foi um ano desafiador, daqueles que não pedem licença para tocar em feridas antigas. Foi um período em que minhas emoções foram profundamente atravessadas pela relação com meu pai (desde nossa convivência até sua morte) e, com isso, pela complexidade que envolve os vínculos familiares. Como é difícil lidar com as imagens que construímos de Pai e Mãe ao longo da vida… e mais difícil ainda aceitar quando elas se quebram.


Por muito tempo, carreguei no inconsciente a figura de um pai poderoso, quase invencível, alguém que jamais envelheceria ou adoeceria. Confrontar diariamente quem ele havia se tornado, acompanhar a evolução rápida das moléstias do seu corpo, foi doloroso em um nível que palavras mal conseguem alcançar. Não era apenas o medo da perda, mas o luto antecipado da imagem que eu tinha dele e, de certa forma, de mim mesma.


Foram seis anos de altos e baixos emocionais, de desgaste físico, mental e espiritual. Uma batalha que enfrentei e pensei por várias vezes em desistir... Diagnóstico após diagnóstico, a ansiedade tomava conta da minha mente, e a sensação de impotência se tornava uma presença constante. Havia dias em que tudo o que eu podia fazer era parar. Parar de reagir, parar de tentar controlar, parar de fingir força. E, mesmo sem perceber, foi nesse silêncio forçado que algo em mim começou a mudar de lugar.


Ao mesmo tempo, meu lado profissional parecia refletir esse caos interno. Mais uma vez, tudo bagunçado, sem perspectivas claras, como se o chão tivesse sido retirado debaixo dos meus pés. Nada avançava no tempo que eu desejava. E hoje entendo: talvez não fosse o tempo da ação, mas o tempo da revisão. E é exatamente essa palavra "REVISÃO" que resume meu ano de 2025!


Encerrar este ano não significa simplesmente “virar a página”, mas reconhecer o quanto precisei aprender a olhar a realidade sem ilusões. Levo comigo uma consciência mais dura, porém mais honesta: nem tudo é justo, nem tudo é controlável, mas tudo exige responsabilidade emocional. Principalmente as escolhas que faço a partir da dor. Levo também no meu íntimo que por mais difícil que a situação esteja, há sempre uma luz, há sempre alguém com a mão estendida para te ajudar. Em 2025, eu pude sentir o amparo de Deus e seus Anjos constantemente na minha vida e sou muito grata a isso. 


O novo ciclo não pede pressa.


2026 pede organização interna, foco e maturidade. Pede que eu use o que sei, o que sou e o que vivi de forma mais consciente, sem dispersar energia tentando salvar o que já cumpriu seu papel. 


O desafio agora não é resistir, mas escolher: pessoas, caminhos, projetos, sem me trair, sem desviar do que realmente faz meu coração feliz.


Que o ano que chega seja menos sobre sacrifício silencioso e mais sobre compromisso com valores reais. Que eu saiba honrar minha história sem ficar presa a ela, sem ficar presa ao que poderia ter sido e não foi. E que as escolhas que eu fizer não venham do medo, mas da verdade que aprendi a sustentar, mesmo quando dói.




Na mesma semana que nosso pai havia desencarnado, o Michael e Ingrid se casaram! Foi uma semana intensa, que começou com essa despedida de um "Nakashima" e a entrada de outra "Nakashima" na família. Foi uma alegria comemorar esse momento tão importante na vida dos dois. Rezo para que Deus proteja os caminhos e os sonhos do casal! Vocês dois tem muito a conquistar e a serem muito felizes!




Completamos 7 anos de casados! Quanta bênção, quanta glória, quanta alegria poder estar ao seu lado compartilhando todos os momentos da vida. Você é o maior presente que eu poderia receber da vida e é um privilégio ter sido escolhida como sua esposa para caminhar nessa jornada. Te amo Daniel Larajeira! Meu sagitariano careca favorito, te amo muito muito muito! Graças a você eu sou uma mulher melhor, mais confiante e amada e quero cada vez mais me melhorar como pessoa para estar ao seu lado!!!







 

Em 2025 fiz minha segunda apresentação pública de Dança do Ventre no Teatro Municipal de Betim. Como tem sido gratificante desenvolver de pouquinho em pouquinho o autoconhecimento corporal e cuidar da autoestima. É tão importante para mulher se sentir bonita e cuidar da autoestima. Acho que toda mulher deveria dançar, pois faz tão bem para alma! E a dança do ventre é tão poderosa, tão acolhedora, tão mágica! Agradeço demais a Escola Ballet Anjos da Dança, a Eleni e o Yuri Abner por estarem sendo instrumentos dessa transformação pessoal. Muito obrigada por tudo, tudo!

E é isso... Nos vemos no próximo ano!


Que 2026 seja um ano próspero para todos que acompanham as leituras por aqui. 

ps: alguém ainda ler blogs? rsrs 




10 de dezembro de 2025

O Vazio que não dói mais....


Mais uma vez vejo tudo ruir. O que parecia sólido começou a rachar a ponto de quebrar e não ter mais volta. As estruturas simplesmente cederam, como se as paredes que construí para me proteger não fossem capazes de suportarem o peso que carregava. Um desmoronamento silencioso, difícil de descrever, impossível de evitar. 

Tentei organizar meu mundo diversas vezes, controlar o que eu sentia, erguer estruturas internas que me dessem segurança. Fiz planos, rotinas, metas; como se fosse possível minha própria vida obedecer os limites que havia criado para ela. Mas agora, tudo parece escapar do meu controle. O que eu pensava que era forte está se desfazendo com o vento. O que eu acreditava ter conquistado está esvaindo pelas minhas mãos. O que antes era certeza virou escombros. 

Há uma angústia interna, um peso, um vazio. Já doeu tanto em outrora que hoje não os sinto mais. Se ao menos fizessem tanto barulho como no passado, teria força para lutar contra eles. Cheguei novamente em um lugar que há mais perguntas sem respostas. As incertezas me fazem olhar para dentro, onde nada está claro e certo. 

Talvez.. a queda seja necessária. Talvez, essa destruição venha abrir espaço para que algo real nasça. Aquilo que se desfaz agora, por mais importante que tenha sido, não sustenta mais quem estou lutando para me tornar. Perder o controle é doloroso e mostra que o medo e esforço não podem tomar as rédeas da sua vida. 

Eu não sei o que pode nascer dos escombros. Não sei quem eu serei quanto tudo se acalmar. Mas estou atravessando esse desmoronamento silencioso e tudo o que posso fazer agora é existir no meio do que desmorona. Talvez essa resistência meio ao caos já seja o ponto de partida de um novo começo.

Quando o Valor Vai Além da Aparência...

 


Valor. Termo relacionado a importância, mérito, preço ou significado que algo ou alguém possui. O conceito é amplo e varia de contexto. Pode ser um princípio moral, uma qualidade pessoal, a utilidade de um bem, um custo financeiro, ou até a duração de uma nota musical. Em suma, é aquilo que faz algo ser desejado, útil ou significativo para alguém.

Há coisas em nós que o mundo não pode medir. Nenhum rótulo, diploma, logotipo, marca ou padrão que tentamos alcançar conta a nossa história inteira. O valor de uma pessoa não nasce do que ela veste, compra ou exibe, mas da força silenciosa que habita aquilo que ela cria, sente e cultiva dentro de si.  

É fácil se perder num cenário em que a aparência tem mais relevância que o caráter. Em que as vitrines ditam quem merecer ser visto e o brilho comprado busca substituir a luz genuína que cada um carrega. Mas sempre existirá uma beleza inegociável: a que nasce espontaneamente, sem pressa e vaidade artificial. A beleza de quem cria algo próprio, de quem cuida de si e do que ama com amor e verdade.

Estou nesse momento refletindo o peso dos meus desejos, buscando discernir o que alimenta a alma e o que só enche as mãos por alguns instantes. Preciso aprender a agir com equilíbrio, dizendo não para aquilo que mantém distraída e distante de mim mesma. Não preciso viver a vida querendo provar algo para alguém. Mas assim tenho feito: vivendo a vida querendo provar meu valor as pessoas e acabei esquecendo quem sou. Tire-lhe o dinheiro, o emprego, os diplomas, os relacionamentos e se pergunte: você continuará sendo quem você é pelo seu verdadeiro valor?

Há um brilho que não precisa se comprado, um brilho que se renova sempre que você olha para sua verdadeira essência, mesmo quando ninguém está olhando. O que te torna importante não é aquilo que você possui, mas aquilo que nutre; não é o que está exposto, mas o que você constrói silenciosamente. Seu valor não está no ouro que veste, mas naquilo que floresce naturalmente dentro de você. 


6 de dezembro de 2025

O sonho que chegou na hora errada

 


Ah, meus desejos. Preciso ter cuidado com aquilo que peço ao Universo, porque quase sempre recebo e quando recebo, não sei como saborear o presente. Minha alma parece viver eternamente insatisfeita, como se nada fosse capaz de preencher esse espaço vazio que insiste em existir. A vida é uma constante interminável entre a vontade de ter e o tédio de possuir, já dizia um filósofo. 

Para ilustrar:

Em 2021, decidi que era hora de mudar o rumo da minha vida profissional. Escolhi a tecnologia e iniciei minha graduação em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, certa de que esse seria o caminho para uma vida melhor. Eu estava exausta do comércio, e a área de TI parecia carregar todas as promessas de crescimento, valorização e novas possibilidades. Enquanto fazia o curso de tecnologia também trabalhava na farmácia. Procurei estágios, participei de dinâmicas e entrevistas e parecia sempre estar no "quase". A bola que eu chutava ia para o gol, mas batia na trave. 

Me formei em dezembro de 2023 sem conseguir entrar na área. Continuei na farmácia até que um dia precisei admitir: minha mente estava gritando por descanso. Problemas no trabalho, preocupações com a saúde do meu pai, questões internas acumuladas; tudo veio como uma onda pesada e silenciosa. Decidi que deveria sair para descansar.

E foi justamente no mês que estava cumprindo aviso prévio que entraram em contato comigo sobre uma vaga que havia me candidatado meses antes. Uma oportunidade perfeita: perto de casa, na minha área, com benefícios maravilhosos e o melhor: estavam dispostos a contratar alguém sem experiência como eu.

Fiz a entrevista sem expectativas, quase sem energia. E, de repente, fui aprovada. O sonho que tanto persegui finalmente se materializava. Aceitei a vaga mesmo cansada, mesmo emocionalmente frágil. nos primeiros dias, tudo parecia mágico. Não demorou muito para o encanto se desfazer, não por falta de interesse, mas porque meu corpo e minha mente já não tinham onde buscar força. Eu havia chegado ao meu limite. E quando percebi que a tristeza estava ocupando o lugar que deveria ser da realização, eu precisei escolher a mim.

Saí. Larguei justamente o sonho que passei anos construindo, não por fraqueza, mas por necessidade. Algumas pessoas me julgaram, outras compreenderam e outras apoiaram. A verdade é que quando a mente pede socorro, não adianta se esconder atrás de remédios ou de conquistas bonitas na carteira de trabalho. Problemas silenciados não desaparecem, só criam raízes mais profundas. 

Hoje eu entendo: não basta conquistar algo se o seu espírito está em ruínas. Antes de realizar grandes sonhos, eu preciso aprender a estar inteira.

Agora, quando eu desejar algo, que seja diferente: não somente alcançar, mas saber sustentar. Não somente por conquistar, mas saber sentir. Não quero apenas realizar, mas estar presente dentro da vida que escolho viver. E, desta vez, quando eu desejar, quero estar preparada para receber. Porque não quero só conquistar, quero poder permanecer também.