22 de dezembro de 2024

A coroa da arrogância...

 


A regra foi clara: um sorteio.

Sorteio é isso: lida com a "sorte", lida com o acaso, lida com uma conjectura de probabilidades que podem resultar em algo inesperadamente bom como também ruim. Os itens sorteados iam dos mais simples aos mais sofisticados. Sei que foi o modo que eles encontraram para agradecerem os funcionários pelos serviços prestados no decorrer do ano. Eu não estava criando expectativas, juro. Mas por alguma razão fiquei frustrada quando descobri que meu "prêmio" era um conjuntinho de tupperware de bebê (da marca buba). E confessando minha frustração com meus colegas balconistas, não era só eu que estava, vou colocar entre ASPAS, "chateada". 

Uma colega comentou que por sermos a "linha de frente" da farmácia, tínhamos direito a itens melhores. E naquele momento, eu dei razão a ela. Estagiários ganharam "itens melhores"... até mesmo uma senhora que é dos serviços gerais, que vai duas vezes na semana limpar a loja, também ganhou um prêmio bom. Na hora, acabei dando meu "prêmio" para uma colega. 

Chegando em casa, conversei com minha sogra e nessa conversa, ela trouxe vários insights que me fez repensar sobre a reação que tive diante a situação.

Não querendo me vitimizar com o ocorrido e achar que fui injustiçada por acreditar que trabalho bastante para ver as coisas funcionando dentro daquele espaço... mas quem sou eu diante as milhares de estrelas do universo? Quem sou eu para julgar se "fulano" ou "ciclano" merece ou não ganhar determinada coisa? Quem sou eu para julgar quem trabalha mais ou menos dentro da empresa? Só porque trabalho na linha de frente, negociando diretamente com quem paga nosso salário no final do mês não significa que mereço ganhar um prêmio melhor que um estagiário que está no início da sua jornada profissional. Como fui mesquinha diante a situação, como fui "pobre" em espírito em não conseguir me alegrar com a alegria do outro. Espero em ocasiões futuras, semelhantes a essa, sair um pouco de "mim" e pensar mais no "nós"... 

E a outra reflexão é... Graças a Deus, não me falta nada, nada mesmo. As dificuldades que já enfrentei na vida, em um passado distante, não são meu presente, não é o que vivencio hoje. Tenho meus desafios, confesso, mas nada comparado a dez, quinze, vinte anos atrás. Instabilidades emocionais, financeiras... materiais... isso, Graças a Deus, foi retirado da minha vida. Eu reconheço como sou privilegiada em vários sentidos e sei que trabalho com pessoas que nem sempre tem a mesma "oportunidade"... Por isso, pesou na minha consciência quando julguei que essas pessoas não eram merecedoras de tais coisas porque seus trabalhos eram de menor valor. Loucura, né? Eu sei...  

O nome disso é "arrogância", momento em que passo desprezar o feito do outro por ter uma visão de "auto-importância"... Coitada. Quem sou eu entre milhões de estrelas? Quem sou eu na imensidão desse vasto e infinito universo? Reconheço minha pequenez... Reconheço que sou pequena demais...  Tenho que tomar cuidado para que essa arrogância não coma meus olhos, meus sentimentos, meus pensamentos... minhas ações, minha humanidade.

Que esse texto fique salvo para que eu volte por aqui e o releia sempre que necessário.    

   


3 de novembro de 2024

Sonhos... Desejos do inconsciente?

 


Naquela noite eu tive um sonho estranho. Sonhei que você morria. Sonhei que eu observava você morrer e nada fazia para ajudá-lo. A sensação que tinha ao ver a cena era de alívio, não tristeza. Acordei espantada e em choque com meus próprios sentimentos. Estranhamente, na semana que tive este bizarro sonho foi na semana que você passou mal e eu tive que ficar um dia inteiro com você na UPA. E aquele dia foi um teste de paciência e de me fazer olhar mais uma vez para um tanto de sentimentos ruins que guardo com relação a você.

E aqui fica uma carta em aberto para ti, pois sei que você nunca a lerá, essas palavras nunca vão chegar até você e elas morrerão antes de alcançarem seu verdadeiro intento.

No fundo, eu nunca te perdoei por ter me deixado para trás. Eu não queria ter sido abandonada por você ainda recém nascida. Eu tinha tantas idealizações de querer ter crescido com um pai presente que isso continua sendo uma ferida aberta em mim. Cresci sem referências de como me posicionar no mundo, sem uma referência masculina forte, estável e presente para me mostrar como ser alguém decidida e segura dos meus passos. E todas as figuras masculinas que tentaram substituir seu espaço, não o fizeram tão bem assim, pois o seu espaço era insubstituível. 

Eu precisava de você para crescer forte. Eu precisava de você para ser minha rocha nos momentos de instabilidade. Eu precisava de um pai e nunca tive de fato um. E isso é algo que dói em mim quando olho pra você, desfalecendo nessa cama, prostrado pelo envelhecimento de seu corpo; dói quando me pego pensando no tempo que perdemos e em toda distância que nos separou por ter sido um completo babaca individualista, por não ter pensado nem um pouquinho em sua família. Dói pai, tudo isso dói porque agora tenho que cuidar de você e isso se tornou um pesado fardo. 

E antes que me falem que é obrigação de filhos cuidarem de seus pais idosos, deixa eu contextualizar a situação: meu pai me abandonou com apenas 2 semanas, foi para outro país, nunca cogitou levar a família com ele e tampouco procurou ser presente. Nunca "cuidou" de mim, nunca cuidou de ninguém da sua família. Viveu a vida de modo egoísta. Fui conhecê-lo com 27 anos doente, velho, desmemoriado. E são longos 6 anos cuidando dele... cuidando de alguém que não cuidou de mim..  

Você tentou preencher sua falta com dinheiro e com aquilo que o dinheiro podia comprar, mas... olhando agora, o que o dinheiro comprou para você, para mim, para nossa família? O dinheiro não comprou afeto, não construiu relações. E todo poder que você almejava ter, com a definhação do seu corpo com o passar dos anos, esse poder não lhe serviu para ampará-lo em sua desgraça. E agora você está tendo que confrontar seu carma e tudo aquilo que rejeitou no passado e ainda que finja demência, sua consciência faz incessantes cobranças de como as coisas poderiam ter sido diferentes se você tivesse sido mais amoroso, mais atencioso; menos egoísta e mais família. 

Eu sei que a Espiritualidade tem alguma lição para me ensinar com toda essa experiência, mas está difícil enxergar sentido... está difícil, mas eu vou aprender com esse desafio. 

Mas acho que meu sonho foi meu inconsciente emergindo. Mostrando no fundo que guardo pensamentos sombrios, maléficos, não tão bons assim. Esse desejo é uma mistura de tudo: sentimentos de dor, de raiva, de nojo, de rejeição. Por um instante, desejei que tivesse chegado sua hora de partir, desejei de verdade me ver livre dessa obrigação, desse fardo. 

Não está muito correto esse tipo de pensamento, eu sei... e tento direcionar esses pensamentos quando vejo que estão indo para um caminho que também pode me destruir mentalmente. 

Naquele mesmo dia que o vi desfalecendo naquela cama, você olhou pra mim e eu olhei para você e quando eu falei que estaria com o senhor e que não era pra se preocupar, foi sincero também.


22 de outubro de 2024

Procuro-me dentro deste ser complexo chamado "eu"

 

Em algum momento tudo que outrora já fora existente serão apenas momentos vividos de um passado errôneo.
De uma vida que muita das vezes não se houve a mínima vontade de viver.
Dentre todas as experiências infinitas que a vida nos proporciona ainda assim continuamos capazes de nos sentirmos entediados.
Somos frágeis, irrefutáveis, e ao mesmo tempo tão fúteis, inovadores e experientes
A vida se torna uma ilusão de tudo aquilo que projetamos.
No fim, o que é isso?
Se não os momentos que já foram passados, se não todos os "presentes" já vividos.
O que é a vida?
Se não uma mera criação de cada ser que habita nesse universo.
Por que nos sentimos tão pequenos comparado com as oportunidades que nos são dadas?
A vida não somente seria "viver", mas sim uma dádiva de estar aqui?
Por que nos diminuímos tanto comparado ao que nos foi dado?
Por que somos capazes de sentir todas as emoções possíveis e independente disso, faremos de tudo que a pior seja a mais frequente.
Como dizia Freud "o ser humano tende a autodestruição".
E estamos constantemente nos destruindo, sendo sugados por outras pessoas, pela a correria da cidade, pela monotonia do nosso próprio ser
Sempre em busca de sair desta bolha que nos prende e cada vez a tornando ainda mais resistente, impenetrável.
A sociedade que dizem ser líquida.
Estamos constantemente tentando fugir disso, sair daquilo que sempre achamos errado, que achávamos inútil
E acabamos nos perdendo dentro do nosso próprio julgamento. 
O que você enxerga fora desta bolha?
O que você sente fora disso?
Como saber que você está fora disso?
Por tantos pensei que houvesse alguma forma de sair disso, me tornar alguém que não fosse alienada e me tornei tudo aquilo que nunca quis. 
Estou imersa numa bolha que eu mesma criei
Me prendi e me transformei naquilo que tanto julguei
Sou fútil, superficial, sem argumentos próprios, dependente, presa em algo que eu mesma criei.
E ao mesmo tempo tão livre, tão capaz, tão suficiente.
Minha complexidade me mata e ao mesmo tempo me salva de mim mesma. 

8 de outubro de 2024

O primeiro passo depende de você...



Não tenha medo de sair pela mesma porta que entrou. 

O que te prende a um lugar que não te faz bem? O que te prende a um propósito que não faz mais sentido mantê-lo? O que te prende a um sonho alheio? Já dizia um filósofo: sonho que se sonha só, é só um sonho; mas sonho que se sonha junto, vira realidade. 

Nessa história toda, eu vejo você sonhando sozinha e lidando com seus sentimentos que foram rejeitados de um modo cruel e mesquinho. Na verdade, você não está mais sonhando. Você foi acordada pela realidade que te mostrou que nem sempre as pessoas que sorriem para ti são aquelas que desejam seu crescimento. Infelizmente, para elas... geramos apenas números, geramos algum valor. Mas, quando não somos mais capazes de gerar valor, somos dispensados, rejeitados, abandonados. Esquecem com facilidade das horas de dedicação, do esforço empregado para tornar real o sonho de outra pessoa. 

Eu observo a situação e sei que sua alma já não se identifica com aquele espaço. E vejo que quanto mais tenta ignorar os sinais de que precisa ir embora dali; mais você sofre, mais adoece e se entope de remédios. 

Eu quero aquela mulher altiva, carismática e alegre de volta. Mas por que só vejo você voltando a ser quem era, se for saindo pela mesma porta que entrou? Deve ser porque sua alma escolheu não estar mais ali. Ela já tomou uma decisão. Ela não quer estar em lugar que não se sente mais parte. Ela não quer lutar por um sonho que não é dela. Ela não quer ser apenas números. Ela quer fazer a diferença. Ela quer transmitir o conhecimento com quem quer aprender. 

Sua alma já decidiu. Só falta o coração e a mente processarem essa decisão.  

    

1 de outubro de 2024

O Moedor de Sonhos

 


Ela caiu em desencanto e mergulhou numa profunda tristeza. Quando viu que foi enganada, seu mundo desmoronou. Ela ficou paralisada  vendo seus sonhos tão acalentados, sendo colocados numa máquina de moer. Aquele triturador estava moendo cada parte do seu corpo. Começou por seus sonhos e logo após sua alma foi junto. Quando chegou em seu coração, seu instinto a fez reagir e em um ato desesperado, o pegou antes de vê-lo partir em miúdos pedaços. 

Segurando o coração em mãos, a moça não sabia mais o que fazer. Sem sonhos, sem alma, quem era ela naquele lugar que dedicou suas energias em torno de um propósito. Acordava religiosamente todos os dias junto com o primeiro raio de sol, preocupada em dar o seu melhor naquele trabalho, acreditando que um dia seria recompensada por seu esforço! Quanto mais se dedicava, mais palavras que a seduziam eram verbalizadas, mais encanto era gerado em troca de um serviço análogo ao escravo. Ela não percebeu que foi sugada dia-a-dia por uma oferta enganosa.  

Quando a mentira foi desmascarada, a verdade não lhe trouxe libertação. A verdade lhe trouxe tristeza, descrença, sofrimento... O pior é que essa história pode morrer silenciada ao ser ignorada. Não se brinca com sonhos alheios, não se gera desejos na mente do outro se não há propósito de consumá-los. Nessa história, eu só vejo um lado errado e não é da moça que segura seu coração.

Ela pode ter perdido seus sonhos na asa da descrença, mas eles voltaram nas asas da esperança.

Ela pode ter perdido sua alma quando confiou em outro Homem, mas a alma é uma centelha divina e ainda que sua chama se enfraqueça, ela não se apaga. 

Ela ainda segura seu coração. Enquanto estiver batendo, ela está viva.